Ceratocone: do diagnóstico ao tratamento. O que você precisa saber em cada etapa

Março de 2026
18 min de leitura
Olho visto em perfil com representação de córnea em composição ilustrativa sobre ceratocone.
Imagem ilustrativa. Não representa paciente ou resultado de procedimento.

Artigo complementar

Este artigo aborda diagnóstico e tratamento. Para entender em detalhe o que os exames mostram e como interpretá-los, leia:

Ele tinha 22 anos e havia trocado de óculos três vezes nos últimos dois anos. O oculista dizia que o grau havia mudado de novo: astigmatismo alto, irregular, difícil de corrigir. Com os óculos novos, enxergava melhor por algumas semanas. Depois, a distorção voltava. A visão noturna era particularmente ruim. Ele havia aprendido a conviver com isso como se fosse normal.

Não era normal. Era ceratocone.

O diagnóstico foi feito durante uma triagem para cirurgia refrativa. O Pentacam mostrou, com clareza, o que nenhuma topografia convencional havia revelado antes: afinamento estromal progressivo, elevação posterior alterada, índices de Belin/Ambrósio fora dos limites de segurança. A cirurgia a laser foi descartada. O ceratocone, naquele momento, ainda estava em progressão.

Esse cenário se repete com frequência. Não porque o ceratocone seja raro (é mais prevalente do que os números clássicos sugerem), mas porque o diagnóstico tardio ainda é comum, especialmente quando a investigação se limita à topografia de face anterior.

Este artigo percorre a jornada completa: como o ceratocone é identificado, como seu progresso é monitorado, e quais são as opções de tratamento em cada estágio com a clareza de que cada intervenção tem um momento certo e uma indicação precisa.

O que é ceratocone e por que não é só "grau alto"

Ceratocone é uma ectasia corneana progressiva. O que isso significa na prática: a córnea, que deveria manter um formato aproximadamente esférico, passa a afinar e protrair na sua porção central ou paracentral, assumindo uma forma de cone. Esse processo não é uniforme, o que explica o astigmatismo irregular característico da doença: um astigmatismo que não segue os eixos regulares e, portanto, não é corrigível de forma satisfatória por lentes esféricas ou cilíndricas convencionais.

A prevalência classicamente citada é de 1 para cada 2.000 pessoas. Mas estudos com tomografia corneana de alta resolução em populações assintomáticas sugerem que o número real é significativamente maior , especialmente quando se incluem formas subclínicas e formas frustras da doença, que não causam sintomas visuais evidentes mas representam risco cirúrgico real.

O ceratocone não é sinônimo de grau alto. É possível ter astigmatismo elevado com córnea estruturalmente normal. É possível ter ceratocone inicial com grau relativamente baixo. A distinção é feita pelos exames, não pelo grau dos óculos.

Fatores de risco que merecem atenção

  • Atopia e alergia ocular: a relação entre ceratocone e alergia ocular é bem estabelecida. A hipótese mais aceita envolve a fricção crônica: pacientes com coceira ocular persistente friccionam os olhos com frequência e intensidade, e isso é um fator de progressão documentado.
  • História familiar: o componente genético existe. Parentes de primeiro grau de portadores de ceratocone devem ser rastreados, mesmo sem sintomas.
  • Síndrome de Down: prevalência de ceratocone significativamente maior nessa população.
  • Uso prolongado de lentes de contato rígidas: pode mascarar o diagnóstico e, em alguns modelos de evidência, contribuir para a progressão.

A pergunta que todo oftalmologista deveria fazer na triagem refrativa: "Você coça os olhos com frequência?" Essa resposta muda o nível de suspeita clínica.

Como o ceratocone é descoberto e como deveria ser descoberto

Sintomas que deveriam levantar suspeita

O ceratocone em estádio inicial frequentemente não causa sintomas óbvios. Quando aparecem, os mais característicos são:

  • Trocas frequentes de grau: especialmente astigmatismo com eixo instável ou valores crescentes. O paciente que "não segura o grau" merece investigação tomográfica.
  • Visão distorcida que não melhora com óculos atualizados: a irregularidade da córnea gera aberrações de alta ordem, distorções que o óculos não corrige porque não é projetado para isso.
  • Diplopia monocular: ver imagem dupla ou fantasma com um olho fechado. Sintoma subestimado e muito específico de irregularidade corneana.
  • Visão noturna desproporcional: halos e glare noturnos intensos, piores do que o esperado para o grau corrigido.
  • Fotofobia progressiva: sensibilidade à luz que aumenta com a progressão da doença.

O exame que faz o diagnóstico e o que ele realmente mostra

A topografia de córnea convencional, baseada em discos de Plácido , mapeia apenas a face anterior da córnea. Para o diagnóstico de ceratocone inicial e, especialmente, de formas frustras, ela é insuficiente.

O padrão atual é a tomografia de Scheimpflug, o Pentacam. A diferença não é apenas tecnológica; é clinicamente relevante.

  • Face posterior da córnea: a elevação posterior é frequentemente o primeiro parâmetro a se alterar no ceratocone, antes de qualquer mudança visível na face anterior. Uma topografia normal com elevação posterior alterada no Pentacam é ceratocone subclínico até prova em contrário.
  • Mapa paquimétrico completo: espessura em múltiplos pontos. O afinamento focal, especialmente quando deslocado do centro geométrico, é sinal de alerta.
  • Índice BAD-D (Belin/Ambrósio Display): índice composto que integra múltiplos parâmetros tomográficos em um valor único. BAD-D acima de 1,6 já merece atenção; acima de 2,6 tem alta especificidade para ceratocone.
  • Índices de progressão: o Pentacam permite comparar exames seriados com precisão submícron. Progressão é definida objetivamente, não por impressão clínica.
O ceratocone subclínico (forma fruste) não causa sintomas visuais significativos e pode ser completamente invisível na topografia convencional. Ele é a contraindicação silenciosa da cirurgia refrativa a laser. Só o Pentacam o identifica com confiabilidade.

A avaliação com Pentacam é realizada no OFTA VITTA.

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Estadiamento: por que a gravidade determina o tratamento

Ceratocone não é uma entidade única. É um espectro que vai do achado tomográfico incidental, sem impacto visual, ao estádio avançado com opacidade estromal e intolerância a qualquer lente de contato. O estadiamento orienta o tratamento.

  • Classificação de Amsler-Krumeich (graus I a IV): classifica com base em curvatura máxima, equivalente esférico, opacidade e espessura mínima. Ainda amplamente usada na literatura e na indicação cirúrgica.
  • Sistema ABCD (Belin): mais moderno. Avalia raio de curvatura anterior (A) e posterior (B), espessura mínima (C) e acuidade visual com melhor correção (D). Captura nuances que o Amsler-Krumeich não captura, especialmente em estádios iniciais.

A consequência prática: o tratamento indicado para ceratocone grau I progressivo é completamente diferente do tratamento para grau III com intolerância a lentes. Tratar ambos da mesma forma é erro clínico.

Ceratocone progride? Quando para?

Sim, progride, mas não de forma imprevisível. Há fatores de risco conhecidos e critérios objetivos para definir quando a progressão está ocorrendo.

Fatores associados a progressão mais rápida

  • Idade jovem: abaixo de 30 anos, o ceratocone tende a ser mais dinâmico. Acima dos 35 a 40 anos, a progressão espontânea desacelera na maioria dos casos, possivelmente por rigidez progressiva do colágeno corneano.
  • Atopia ativa e fricção ocular: pacientes que coçam os olhos regularmente, especialmente com intensidade, têm progressão mais rápida. Esse é o fator modificável mais importante: controle da coceira reduz a progressão.
  • Clima quente: estudos em populações de países tropicais mostram maior prevalência e progressão mais rápida, possivelmente relacionado ao calor e à maior exposição UV, além da prevalência de atopia.
  • Ausência de tratamento: ceratocone progressivo não tratado pode evoluir para estádios avançados com necessidade de transplante de córnea. A janela terapêutica do crosslinking é de córneas com espessura ainda adequada. Uma vez perdida essa janela, as opções se restringem.

Como a progressão é definida objetivamente

Progressão não é impressão clínica. É definida por critérios tomográficos comparativos:

  • Aumento de K máximo acima de 1,0 D em 12 meses
  • Redução de espessura mínima acima de 2% em 12 meses
  • Aumento da elevação posterior acima de 2 mícrons em 12 meses
  • Mudança de equivalente esférico acima de 0,50 D em 12 meses

A monitorização seriada, geralmente a cada 6 meses em casos suspeitos ou já diagnosticados, é o que permite identificar a progressão no momento certo para intervir.

As opções de tratamento: cada uma no seu momento certo

Esse é o ponto onde a maioria dos artigos sobre ceratocone falha: apresentar as opções como se fossem equivalentes ou intercambiáveis. Não são. Cada modalidade tem uma indicação específica, um objetivo clínico distinto e um momento ideal na história natural da doença.

Crosslinking corneano (CXL): estabilizar antes de tudo

Objetivo: estabilizar a córnea. Não melhorar a visão. Essa distinção é fundamental para alinhar expectativas.

O crosslinking funciona por fotoativação química: riboflavina (vitamina B2) é instilada na córnea e ativada por radiação UVA de comprimento de onda específico. A reação fotoquímica gera novas ligações covalentes entre as fibrilas de colágeno estromal, aumentando a rigidez biomecânica da córnea e interrompendo o ciclo de progressão.

  • Indicação precisa: ceratocone com progressão documentada, espessura corneana mínima acima de 400 mícrons (protocolo Dresden clássico) e ausência de cicatriz estromal central significativa.
  • Dresden clássico vs. protocolos acelerados: o protocolo original (3 mW/cm² por 30 minutos) tem a maior evidência de longo prazo. Protocolos acelerados (9 a 45 mW/cm²) reduzem o tempo de procedimento, mas os dados de eficácia em 5 a 10 anos ainda estão sendo consolidados.
  • O que o crosslinking não faz: não reverte o dano já estabelecido. Após o CXL, o paciente pode continuar precisando de óculos ou lentes de contato para correção visual. O objetivo é impedir que piore, não curar o que já foi perdido.

Implante de anel intraestromal (ICRS): melhorar a visão quando o óculos não é suficiente

O anel intraestromal, comercialmente conhecido como Ferrara Ring, Intacs, Keraring, entre outros, consiste em segmentos de polimetilmetacrilato (PMMA) inseridos em um canal criado no interior do estroma corneano. Sua ação é mecânica: ao ocupar espaço no estroma periférico, os segmentos achatam a zona central da córnea, reduzindo a protrusão e regularizando parcialmente a superfície.

  • Objetivo: melhorar a qualidade visual e a tolerância a lentes de contato. Não substitui o crosslinking em córneas ainda em progressão.
  • Com laser de femtossegundo: a criação do canal com femtossegundo, em vez do mecânico, aumenta a precisão da profundidade e do diâmetro, reduz o risco de complicações e melhora a reprodutibilidade do resultado. É o padrão atual em centros especializados.
  • Reversibilidade: os segmentos podem ser removidos ou substituídos se o resultado não for satisfatório ou se a doença progredir. Essa característica é uma vantagem importante em relação a outras modalidades.

Lentes de contato especiais: quando a correção óptica precede ou substitui a cirurgia

Em vários estádios do ceratocone, especialmente nos moderados e avançados, a melhor acuidade visual não é alcançada com óculos nem indicada para cirurgia imediata. As lentes de contato especiais preenchem esse espaço.

  • Lente rígida gás-permeável (RGP): cria uma interface de lágrima entre sua superfície regular e a córnea irregular, neutralizando o astigmatismo irregular e melhorando a acuidade. Primeira opção em casos moderados que não toleram óculos.
  • Lente escleral: apoia-se na esclera, não na córnea. Isso elimina o contato com a zona afetada, melhora o conforto e permite o uso em córneas muito irregulares ou com cicatrizes superficiais. É a opção de escolha em casos avançados antes de considerar transplante.
  • Lente híbrida: centro rígido com saia gelatinosa. Combina a óptica da lente RGP com conforto maior. Indicada em casos selecionados com dificuldade de adaptação a lentes puramente rígidas.

Importante: as lentes de contato não tratam o ceratocone: não estabilizam nem revertem a doença. Elas corrigem a visão enquanto o tratamento estrutural (CXL, anel) é conduzido ou quando não há indicação cirúrgica ativa.

Transplante de córnea: a última linha, não a primeira opção

O transplante de córnea é indicado quando todas as outras opções foram esgotadas ou são inviáveis: ceratocone avançado com opacidade estromal central significativa, intolerância comprovada a qualquer tipo de lente de contato especial, acuidade irrecuperável por meios ópticos.

  • DALK (ceratoplastia lamelar profunda anterior): substitui o estroma doente preservando o endotélio do receptor. É o procedimento de escolha no ceratocone porque o endotélio, na maioria dos casos, está intacto. Menor risco de rejeição, recuperação mais rápida, resultado refrativo mais previsível do que a ceratoplastia penetrante.
  • PKP (ceratoplastia penetrante): substitui toda a espessura da córnea, incluindo o endotélio. Reservada para casos com comprometimento endotelial associado ou quando o DALK não é tecnicamente viável.

Quando o ceratocone é diagnosticado e tratado cedo, a necessidade de transplante é evitada na grande maioria dos casos.

O que o ceratocone NÃO é e o erro que pode comprometer a visão definitivamente

Contraindicação absoluta

Cirurgia refrativa a laser (LASIK, PRK ou SMILE) em córnea com ceratocone, mesmo inicial ou subclínico, é uma contraindicação absoluta. Não há grau de ceratocone "leve o suficiente" para ser ignorado na triagem refrativa.

A lógica é simples: a cirurgia refrativa a laser remove tecido estromal para remodelar a curvatura da córnea. Em uma córnea já biomecanicamente fragilizada pelo ceratocone, essa remoção de tecido pode precipitar ectasia progressiva, uma degeneração acelerada e irreversível que pode levar a perda visual severa.

Uma topografia de Plácido normal não exclui ceratocone subclínico. Exclui apenas o que a topografia é capaz de detectar, que é a face anterior. A elevação posterior alterada, o afinamento focal, o BAD-D elevado: só o Pentacam mostra.

Já atendi pacientes que foram operados a laser em outros serviços, sem Pentacam pré-operatório, e desenvolveram ectasia pós-refrativa progressiva. A visão, que podia ter sido simplesmente corrigida com óculos ou lente de contato, tornou-se irrecuperável sem transplante de córnea. O Pentacam existia. A triagem não foi feita.

A triagem pré-refrativa com tomografia de Scheimpflug não é protocolo optativo. É o que diferencia um resultado cirúrgico excelente de uma complicação iatrogênica. Veja mais sobre os critérios de segurança em cirurgia refrativa.

Ceratocone não é sentença. É diagnóstico que exige sequência correta

O paciente com 22 anos que abriu este artigo, aquele que trocou os óculos três vezes em dois anos, foi diagnosticado no momento certo. Fez crosslinking. A progressão foi documentada e interrompida. Dois anos depois, com lente rígida gás-permeável adaptada corretamente, tem visão funcional boa. Não precisou de transplante. Provavelmente não vai precisar.

Esse é o desfecho possível quando a doença é identificada antes de atingir o ponto de sem retorno. O ceratocone não perdoa o diagnóstico tardio, mas é altamente responsivo ao tratamento precoce.

A diferença entre esses dois caminhos, na maior parte das vezes, é um Pentacam feito no momento certo.

Para entender em detalhe como os exames são interpretados e o que cada parâmetro significa clinicamente, leia o artigo complementar: Ceratocone: o que os exames realmente mostram.

Suspeita de ceratocone ou triagem para cirurgia refrativa?

O assistente de IA é um serviço exclusivo do Dr. Augusto Legnani e não representa o OFTA VITTA Hospital Oftalmológico.

Perguntas frequentes

Sobre o autor

Dr. Augusto Legnani Neto, oftalmologista (CRM-PR 18.987 | RQE 14.962). Especialista em cirurgia de catarata, cirurgia refrativa e neuro-oftalmologia. Fundador do OFTA VITTA Hospital Oftalmológico e do Instituto OFTA (Umuarama, PR). Professor do curso de Medicina da UNIPAR. Preceptor de residência médica em Oftalmologia.

Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui a avaliação clínica individualizada.

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