1. Epidemiologia e Microbiologia
A endoftalmite bacteriana pós-operatória ocorre em 0,03–0,05% das cirurgias de catarata. O Staphylococcus epidermidis é o agente mais frequente (70% dos casos), seguido por S. aureus e bacilos gram-negativos. A flora conjuntival do próprio paciente é a principal fonte de contaminação.
| Agente | Frequência | Apresentação | Prognóstico |
|---|---|---|---|
| S. epidermidis | ~50% | Subaguda (3–7 dias) | Bom |
| S. aureus | ~10% | Aguda (<48h) | Reservado |
| Streptococcus sp. | ~10% | Fulminante (<24h) | Grave |
| Gram-negativos | ~5% | Aguda, destrutiva | Muito grave |
| Fungos | Raro | Subaguda/crônica | Variável |
2. Limitações do EVS (Endophthalmitis Vitrectomy Study)
O EVS (1995) foi o ensaio clínico que definiu o padrão de tratamento por décadas. Suas conclusões principais foram: (1) vitrectomia imediata beneficia apenas pacientes com percepção luminosa (PL); (2) antibióticos sistêmicos não adicionam benefício.
Limitações do EVS que impactam a prática atual
- • Realizado em 1990–1994 — microbiologia e resistência bacteriana mudaram significativamente
- • Não incluiu moxifloxacino (não existia) nem vancomicina intravítrea em dose atual
- • Vitrectomia com técnica e equipamentos de 30 anos atrás (23G/25G não existiam)
- • Critério de inclusão restrito: excluiu casos com hipópio >50% e infecção fúngica
- • Não avaliou CEVE (Combined Endophthalmitis Vitrectomy with Explantation)
3. Protocolo Antibiótico Atualizado
Intravítreo (1ª linha)
Sistêmico — Alternativa Contemporânea
O EVS não recomendou antibióticos sistêmicos, mas estudos posteriores sugerem benefício do moxifloxacino IV em casos graves (Streptococcus, gram-negativos).
Red Flag — Vancomicina Intravítrea
Evitar vancomicina em concentrações >1 mg/0,1 mL — risco de HORV (Hemorrhagic Occlusive Retinal Vasculitis), complicação rara mas devastadora descrita após injeção intravítrea. Nunca usar vancomicina profilática intravítrea.
4. Vitrectomia Precoce — CEVE
O conceito de CEVE (Combined Endophthalmitis Vitrectomy with Explantation) propõe vitrectomia precoce independente da acuidade visual inicial, com explantação da IOL quando há biofilme confirmado ou suspeito. Evidências recentes (Wykoff et al., 2023) sugerem que vitrectomia precoce em 23G/25G melhora prognóstico mesmo em casos com melhor que PL.
Algoritmo de Decisão — OFTA VITTA
Condição
AV ≥ MM (conta dedos ou melhor)
Sem hipópio volumoso
Conduta
Tap + injeção intravítrea → reavaliação 48h
Condição
AV = PL
Hipópio >50% ou progressão rápida
Conduta
Vitrectomia imediata (23G) + IVT
Condição
Streptococcus confirmado
Qualquer AV
Conduta
Vitrectomia imediata + moxifloxacino IV
Condição
Suspeita de biofilme em IOL
Falha ao tratamento inicial
Conduta
CEVE — vitrectomia + explantação de IOL
5. Profilaxia
Medidas com evidência nível A
Medidas com evidência nível B/C
Referências
- Endophthalmitis Vitrectomy Study Group. Results of the Endophthalmitis Vitrectomy Study. Arch Ophthalmol. 1995;113(12):1479–1496.
- Wykoff CC et al. Early vitrectomy for endophthalmitis: updated evidence. Ophthalmology. 2023.
- Bhatt UK et al. HORV after intravitreal vancomicin. Retina. 2019.
- ESCRS Endophthalmitis Study Group. Prophylaxis of postoperative endophthalmitis. J Cataract Refract Surg. 2007.